História das Barcas

O sistema de navegação entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói existe desde 1835 e entre o Rio de Janeiro e a ilha de Paquetá desde 1877. Em 1977 foi criada a Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro (Conerj), pertencente ao Governo do Estado, que passou a operar todo o sistema de transporte aquaviário do estado do Rio de Janeiro até a sua privatização.

Desde 1835 as barcas a vapor já circulavam regularmente na Baía, realizando o percurso Rio – Niterói, configurando uma inicial relação entre a população da capital do Império e as povoações da “banda d’além.

A Sociedade de Navegação de Nictheroy passa a operar em 1835, possuindo “ três barcas que trafegavam de hora em hora, com a capacidade de 250 passageiros, no período das seis da manhã até as seis da tarde”. (NORONHA SANTOS, 1934, p. 218). Evidentemente podemos concluir que já havia esta demanda, principalmente no intento de incrementar o comércio entre as duas margens da baía (Capital do Império e Capital da Província Fluminense), já que Niterói, a esta época era constituído por muitas chácaras e pequenas fazendas que supriam, em parte, as necessidades de abastecimento da Corte.

“No entanto, o incremento da navegação a vapor contribuiu para tornar Niterói, não só em aprazível estância balneária, como em local de residência alternativo para quem desejasse (e pudesse) se transferir do congestionado centro urbano.” (ABREU, 1987, p. 42)

A Sociedade de Navegação de Nictheroy mantêm-se soberana neste transporte até meados do século, expandindo exponencialmente seu capital e mantendo exclusivamente o fluxo para Niterói, quando em 1840 é fundada a Companhia Inhomirim, que a princípio realizava pequenas carreiras de navegação a vapor para pontos do litoral fluminense como Porto das Caixas.

Em 1850 a Companhia Inhomirim obtém permissão para manter uma linha de transporte regular entre a Corte e Niterói. Entretanto, com o objetivo de contornar a disputa pela concorrência, as duas Companhias entram num acordo e transformam-se numa única, com o nome de Companhia Niterói – Inhomirim.

Esta nova Companhia, além de manter as viagens para Niterói e para os principais portos do fundo da baía, que a esta altura representavam os principais pontos de embarque e desembarque, sobretudo de produtos como o café do Vale do Paraíba e a cana de açúcar (NORONHA SANTOS, 1934), estabelece uma carreira para o bairro de Botafogo, devido ao seu dinamismo notadamente aristocrático a esta época, sendo o lugar de residência das famílias mais abastadas. Botafogo também passa a ser um bairro procurado para os banhos de mar e torna-se então o destino mais lucrativo para a Companhia Niterói – Inhomirim, pois “o desenvolvimento da empresa atesta, sem dúvida a atratividade deste empreendimento.

Em 1859, a Niterói – Inhomirim já tem nove barcas em tráfego regular para Niterói.” (SILVA, 1992, p. 56)

Revolta das Barcas

A Revolta das Barcas foi um levante popular, ocorrido em 22 de Maio de 1959 contra o serviço hidroviário na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro. A revolta, além de 6 mortos e 118 feridos, resultou na depredação e incêndio tanto do patrimônio das barcas quanto da residência da família de empresários que administravam o serviço (o Grupo Carreteiro), e terminou com intervenção federal e estatização das barcas.

À época, bem antes da existência da Ponte Rio-Niterói, o único serviço de transporte entre Niterói (então capital do estado) e Rio (então capital do Brasil) eram as barcas, que levavam aproximadamente 100 mil passageiros por dia (quase metade da população niteroiense de então).

O Grupo Carreteiro, que controlava o serviço, solicitava constantemente apoio financeiro do governo para cobrir os gastos, alegando prejuízo. Porém, o governo negava maiores subsídios sob a acusação do Grupo prestar falsas informações sobre seus gastos, com fortes suspeitas de que a empresa gastava menos da metade do que exigia - suspeitas reforçadas pelas aquisições de fazendas e outros tipos de propriedades pela família Carreteiro, fatos notados pela população.

Somado a isso, as mobilizações sindicais no Brasil que incentivavam trabalhadores e trabalhadoras a se organizar eram crescentes, entre elas o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais, que com freqüência paralisava o trabalho - paralisações que eram usadas pelo Grupo Carreteiro como justificativa para novos aumentos tarifários.

A greve dos marítimos

Na noite do dia 21 de maio de 1959, o sindicato entrou em greve, de surpresa, mais uma vez, reivindicando melhores condições de trabalho e organização para os cerca de 4 mil funcionários da empresa.

Com a greve, as Forças Armadas foram encarregadas de administrar provisoriamente as viagens entre Niterói e o Rio, desde a condução até a organização das filas. Foram utilizadas duas embarcações especiais para tal, denominadas "avisos", que, porém, tinham capacidade reduzida.

A revolta

Com o serviço reduzido e logicamente sem dar vazão à demanda, a população começou a se aglomerar na Praça Araribóia, e o desconforto e o atraso foram aumentando a tensão local. Para piorar, os fuzileiros navais que tentavam "organizar" a fila (então um grande aglomerado) começaram a agir com truculência, aumentando o descontentamento e a agitação.

Quando um dos militares resolveu dar coronhadas nos passageiros, uma pedra foi lançada contra uma vidraça das barcas, e a resposta dos fuzileiros foi uma rajada de tiros para o alto, o estopim da fúria popular.

Iniciou-se um quebra-quebra pela estação das barcas, que foi incendiada e teve a frota destruída. Os móveis da estação e pedaços das embarcações foram arremessados na rua e incendiados. A revolta seguiu, com a população em marcha para a Rua São João, onde ficava o escritório da empresa, igualmente invadido, destruído, com papéis e moveis sendo arremessados da janela e ateados em chamas.

Por fim, uma marcha em direção à residência dos Carreteiro no bairro Fonseca, a três quilômetros do foco da revolta. A casa foi incendiada, os pertences, destruídos, e os móveis caros, arremessados do telhado. No fim, encontrou-se escrito em uma parede: "aqui jaz as fortunas do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo."

No dia seguinte, a situação já estava sob controle, e o governo brasileiro assumiu o controle das barcas, estatizadas.

A revolta, o vandalismo e a luta entre populares e militares resultaram em 6 mortos e 118 feridos. Alguns periódicos compararam o episódio chamando Niterói de "uma pequena Bastilha".

História recente

Em 1998 um consórcio de empresas privadas assumiu o controle acionário da Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro (Conerj), sob regime de concessão, dando origem à Barcas S/A. A frota herdada era composta por embarcações tradicionais. Foram feitos investimentos na melhoria do serviço e na reforma de 8 embarcações. No início da concessão somente as linhas Rio – Paquetá, Rio - Ribeira e Rio – Niterói estavam em atividade.

Em 1999, cerca de 70% da frota passou por revisões e reformas, e a operação na linha Rio – Niterói passou a contar com 8 embarcações ao invés das 3, em operação no período da concessão.

Em 2000, dando continuidade às reformas e reestruturação da empresa, um novo terminal foi entregue aos passageiros na Praça XV, o que incluiu a restauração completa do prédio histórico, além da recuperação das áreas marítimas da estação, pontes, flutuantes e estacas. Neste mesmo ano Barcas S/A foi certificada segundo normas da ISO 9001.

Em 2001, a Barcas adaptou e destinou uma embarcação para recolher, diariamente, o lixo flutuante nos arredores das pontes de atracação e nas rotas náuticas das embarcações. A barca "Cata-Lixo", como foi nomeada, recolhia em média 500 kg de lixo por dia e se tornou um projeto ambiental de referência.

Em 2002, teve inicio o projeto de modernização e a estação de Paquetá também foi reformada no mesmo ano.

Em 2003, o estaleiro Barcas Rodriguez foi inaugurado, marcando o processo de reativação da Indústria Naval Fluminense. Para atender à fabricação das novas embarcações foi feita a reforma do antigo estaleiro Cruzeiro do Sul. A tradicional cerimônia do batimento de quilha deu início aos trabalhos e à construção da embarcação Zeus no local. Nesse mesmo ano, Barcas também inaugurou o Centro de Tecnologia Aplicada Cecília de Souza Antunes (CTA), a fim de treinar e formar mão-de-obra qualificada destinada à construção das novas embarcações da empresa.

O ano de 2004 foi marcado pela inauguração da linha marítima: Rio–Charitas. Nos primeiros dois meses de operação, cerca de 5 mil usuários já eram transportados por dia. O primeiro catamarã construído no estaleiro Barcas Rodriguez, o Zeus, com capacidade para 238 pessoas equipado com ar condicionado, foi usado na linha seletiva da empresa. O terminal hidroviário de Charitas levou a assinatura do arquiteto Oscar Niemeyer e se tornou uma atração turística da cidade de Niterói. Com dois mil metros quadrados e 700 m² de vidro para compor o salão panorâmico de embarque de passageiros, o espaço abriga lojas de conveniência, restaurante, com vista panorâmica da enseada e da Baía de Guanabara. Um dos destaques de Charitas é o recuo da estação em relação à linha d’água e a construção de um píer sobre estacas com o objetivo de minimizar o impacto ambiental.

Em 2005, teve início a integração entre modais na cidade de Niterói. As empresas Ingá, Miramar e 1001 participaram da iniciativa que visa oferecer mais conforto e economia aos passageiros da linha seletiva Rio-Charitas.

Em 2006, a linha Praça XV – Cocotá substituiu a antiga linha Rio – Ribeira, com o objetivo de facilitar o acesso aos usuários da Ilha do Governador, por estar estrategicamente posicionada no centro da ilha. A integração entre modais, com uma tarifa promocional entre barcas e ônibus que operam na Ilha também foi oferecida aos usuários no início da operação em Cocotá. A inauguração de dois catamarãs sociais, o Gávea I e o Ingá II, também ocorreu no ano de 2006. Com tecnologia e design italiano, as embarcações que possuem dupla proa, eliminaram a necessidade de manobra e reduziram o tempo de viagem na linha Rio - Niterói para 12 minutos. Com capacidade para 1.300 passageiros (900 sentados e 400 em pé), o catamarã social possui circuito interno de televisão, poltronas acolchoadas e um moderno sistema computadorizado de monitoramento e navegação.

Em 2007, a Barcas lançou o terceiro catamarã social, O Urca III, que seguiu os mesmos padrões de conforto e segurança dos catamarãs Gávea I e Ingá II. Nesse mesmo ano foi contratada uma empresa especializada em gestão para impulsionar o desenvolvimento da concessionária e implantar um novo modelo de gestão com foco no cliente.

Em 2008, a Barcas inaugurou seu Centro de Controle Operacional (CCO), que permitiu precisar, em tempo real, os horários de partida e chegada das embarcações, a localização das barcas e catamarãs, sua velocidade, destino e o número de passageiros presentes em cada uma delas. Neste mesmo ano foi lançado o quarto catamarã social, o Neves V, completando todas as ações projetadas para os primeiros 10 anos da concessionária. No mês de maio deste ano a embarcação Boa Viagem também foi entregue completamente reformada.

2009 começou com a entrada da embarcação Pégasus na operação. O catamarã com capacidade para 174 passageiros inaugurou uma nova fase no serviço prestado nas linhas Praça XV-Cocotá e Praça XV-Paquetá, reduzindo o tempo do percurso em cerca de 20 minutos e oferecendo mais conforto aos usuários. Em agosto, o catamarã Expresso Macaé, originalmente construído para navegação em alto mar, readaptado no estaleiro da concessionária para trabalho em baía, foi incluído na malha de viagens. Ao longo de todo o período também foram feitas melhorias nas instalações das estações Praça XV e Praça Araribóia. A adaptação das estações e embarcações às necessidades de pessoas com deficiência, realizada no mesmo ano, recebeu um prêmio da Prefeitura da cidade de Niterói.

Em 2010 a concessionária "priorizou" investimentos e equipamentos para atender com satisfação os usuários, realizando obras de ampliação nos salões de embarque e na sala da supervisão das estações Praça XV e Niterói. Finalizou a implantação dos validadores de Riocard, e passou a controlar o acesso dos usuários com direito à gratuidade nas roletas de passe livre em todos os terminais.

Em 2012, 80% de seu capital, foi vendido ao grupo CCR, na qual se terá investimentos em novas embarcações, entre outras melhorias. No dia 2 de julho do mesmo ano, a empresa mudou seu nome para CCR Barcas.

Além de ter a maior tarifa de transporte público do Rio de Janeiro, e a segunda maior tarifa de barcas no mundo, o serviço prestado pela empresa é frequentemente alvo de reclamações por parte de seus milhares de usuários, tendo em vista a ocorrência usual de grandes filas de espera, grande concentração de usuários nas estações, e também a falta de um sistema eficaz de circulação de ar em dias altas temperaturas.

Apesar das alegações por parte da concessionária de que investe no melhoramento do serviço, a maioria dos usuários apresenta grande insatisfação. Tal situação é agravada pela falta de concorrência na exploração do serviço.

Inicialmente, os chamados catamarãs sociais foram lançados como uma alternativa mais rápida e confortável, pelo fato de possuírem sistema de proa dupla e ar-condicionado. Porém, o ar-condicionado, ligado originalmente nas primeira semanas, logo foi desativado, permanecendo inoperante desde então.

CPI das Barcas

Em fins de 2008, antes do grupo CCR assumir o controle acionário da concessionária Barcas S/A, quando adquiriu 80% das ações da empresa, foi instaurada na Alerj a CPI das Barcas, deflagrada por um acidente ocorrido na estação Paquetá, onde 25 pessoas ficaram feridas devido à queda de uma rampa de acesso às embarcações. Presidida pelo deputado Gilberto Palmares, a CPI teve como principal objetivo averiguar não apenas as causas deste e de outros acidentes, mas também o descumprimento de alguns pontos do contrato de concessão, como a disponibilização de um número de vagas inferior ao previsto em horários de pico.

No relatório final da CPI, aprovado em 9 de junho de 2009 (e votado em agosto), foram apresentadas 64 propostas, dentre as quais o retorno da barca nos horários da madrugada, a redução da tarifa em certos trechos e a construção de estações no porto do Rio de Janeiro e em São Gonçalo (que representa aproximadamente 40% dos passageiros que fazem a travessia Praça XV-Niterói ). Além dessas recomendações, o relatório apresentou ainda regras para que em futuros contratos de concessão seja proibido o controle acionário por parte de investidores de modais concorrentes, numa referência ao fato de o principal acionista da Barcas S/A (com 53% das ações da concessionária) ser o Grupo JCA.

No dia 2 de julho de 2012, o Grupo CCR assumiu o controle acionário da concessionária Barcas S/A, adquirindo 80% das ações da empresa. Com a chegada da CCR, um dos maiores grupos privados de concessões de infraestrutura da América Latina, a concessionária passou a se chamar CCR Barcas, com a promessa de iniciar uma série de melhorias para o início de uma nova fase na prestação do serviço.