Controle precário na fronteira facilita fugas

Na divisa entre Brasil e Paraguai, não é preciso sequer mostrar identidade para ir ao outro lado 

Flávio Freire | O Globo


De um lado da rua, na brasileira Ponta Porã, casas simples, um tabelião de notas e um comércio de baixa gastronomia. Bem rapidinho, menos de um minuto, é possível atravessar o canteiro central da Avenida Internacional para chegar à paraguaia Pedro Juan Caballero. Não precisa de passaporte. Sequer carteira de identidade, Se o ex-gerente de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato passou por ali, certamente não teve qualquer dificuldade para chegar ao exterior, em meio a sacoleiros que transitam de um lado para o outro freneticamente em busca de ofertas de roupas a eletrônicos, de cosmético a pneus de caminhão. 

Canos e motos transitam de um país para o outro sem qualquer cerimônia, Salvo alguns guardas de trânsito exercendo o poder no apito, em alto e bom som, o cuidado para evitar a entrada de um visitante indesejado está longe dos rigorosos sistemas de imigração aeroportuários. O mal-conservado canteiro central é facilmente vencido pelos que arrastam enormes sacolas e sacos de lixo ainda maiores, sempre com quilos e quilos de bugigangas. 

— Aqui é fronteira seca, praticamente a mesma cidade. Tanto que muita gente anda de um lado para o outro sem saber em que país está. Qualquer pessoa de má-fé pode fugir de seu país sem dificuldade alguma — diz a delegada regional da Policia Federal de Ponta Porã, Paloma Alves. À frente de uma equipe que tem atuado rigorosamente no combate ao tráfico de drogas, a delegada afirma que há, nos dois países, um serviço de imigração para controlar a entrada de pessoas de um país para o outro. Mas ressalva: — o serviço existe, mas as pessoas não procuram.

Pedro Juan Caballero fica a cerca de 600 quilômetros de Assunção, capital do Paraguai. Uma fonte da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso do Sul disse que tem sido comum procurados pela polícia fugirem do Brasil pelas fronteiras secas, não só do Mato Grosso do Sul, mas também do Mato Grosso. A cidade tem sido também um dos principais destinos de traficantes e de chefes de quadrilhas. 

— O que o Pizzolato teria feito (fugido por Pedro Juan) é o que todos (criminosos) fazem. Há anos essa é a principal porta de saída para quem pretende fugir. Não é segredo para ninguém que os governos (Brasil e Paraguai) não fazem nada para evitar isso — disse o advogado Mário Josué Zeferino, advogado criminalista que atua na região e que tem, entre outros clientes, alguns foragidos que tentam resolver a situação jurídica no país. 

Em 2010, os então presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo acertaram medidas conjuntas para o combate ao narcotráfico na região, com instalação de bases da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança nas regiões de fronteira de 11 estados. Desde então, a polícia continua lutando contra o narcotráfico e a entrada de mercadorias contrabandeadas. O esforço, no entanto, não é o mesmo quando se trata de tentar evitar que condenados brasileiros usem o país vizinho como “passaporte da liberdade”. 


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