Brasileira quer ajuda para fugir da guerra em Gaza

MARCELO NINIO
ENVIADO ESPECIAL A GAZA - FOLHA DE SP

Uma nasceu no Rio e mudou-se para Gaza, que passou a chamar de lar. O outro nasceu em Gaza e adotou o Rio, onde prosperou nos negócios, antes de voltar.

Ambos têm passado as últimas noites em claro, tentando acalmar as filhas pequenas, assustadas com os intensos bombardeios israelenses.

Laila Shahin e Omar al Jamal integram a minúscula comunidade de brasileiros da faixa de Gaza -- segundo o escritório de representação do Brasil para a Palestina, são cerca de 15 pessoas.

Laila, 39, deixou Niterói (RJ) há dez anos com o pai, palestino de Gaza. Em 2009, ela viveu um drama familiar quando o pai, doente, buscava ajuda para escapar de Gaza, em meio à última ofensiva israelense.

Quatro anos depois, com o pai já morto e uma filha de um ano, é ela que quer sair.

"As últimas noites foram terríveis", conta Laila. "Minha casa inteira treme toda vez que tem um ataque. Gostaria de sair por um tempo, nem que fosse para Israel. Só não quero ir para o Brasil".

Muito religiosa, ela usa o niqab, lenço muçulmano que só deixa os olhos à mostra, e acha impossível seguir o Corão no Rio.

Já o empresário Omar, 60, nascido em Gaza, morre de saudades do Rio, onde viveu 35 anos e tinha uma concessionária de automóveis.

De volta a Gaza em 2008 para cuidar da mãe doente, ele dobrou-se ao conservadorismo local, deixou para trás a longa vida de solteiro, casou com uma palestina e tem uma filha de um ano e meio.

Só não esperava que, em menos de quatro anos, viveria duas guerras. "Passamos os dias em casa e as noites em claro. Hoje [ontem] foi a primeira vez que saí de casa desde o começo dos ataques. A cidade parou", diz.

Omar acha a paz possível. "Não importa quem começou. Violência puxa violência", afirma. "Precisamos é de um acordo político para garantir os direitos dos dois lados. Garanto que palestinos e israelenses podem ser excelentes vizinhos."